A olho nu ou (re)vestido

Capítulo-momento I

Guimarães – 30 de Junho de 2012 – 18h

Café Concerto do CCVF – Centro Cultural Villa Flor

Texto de apresentação

Guerrero Notebook: Guimarães 2012, capítulo-momento I intitulado A olho nu ou (re)vestido, será uma conferência-performance resultante de um exercício livre de observação directa e indirecta – logo passível de ser ficcionada, imaginada e apropriada através de terceiros – do primeiro semestre da programação artístico-cultural e das intervenções urbanísticas no âmbito da efeméride Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura com um tratamento artístico (combinando escrita, teoria e performatividade).

O que vai acontecer?

Neste primeiro momento, irei abordar o que foram estes seis meses de programação num contexto performativo que articula a teoria em contacto directo com as propostas programáticas (sobretudo artísticas performativas – é bom que se esclareça) da Guimarães 2012.

À pergunta respondo desta forma: tudo. Pode acontecer de tudo. Desde ………………………….

……………………………………………. até …………………………………………………………….

passando por ………………………………………………………………………, e indo, pasme-se, a

………………………………………………………………………………………… .

Nelson Guerreiro
Maio de 2012

Excerto 1.

Abertura: os preliminares

18h. Hora marcada para o início. 18h e… Hora desmarcada para o início. Como era de esperar, procedeu-se à entrada livre das pessoas e à acomodação delas com base no seu livre arbítrio. Nelson estava no exterior esperando o sinal para entrar. Olhava para o infinito de costas para o Café Concerto, ou seja, para a cidade. Depois dos espectadores estarem devidamente instalados, Nelson dirigiu-se para o seu lugar e bebeu água a olhar para eles.

Nelson pensou que gostaria que este fosse o primeiro parágrafo da sua conferência-performance que tem um encenador que é ele. Como tal, lê as didascálias e dá indicações a si próprio, partilhando com os espectadores aquilo que normalmente só se dá a ver, fruto de uma convenção que oculta o que está pré-determinado enquanto acção: as palavras que não são para dizer e o movimento dos corpos que é só para ver.

Agora, eu estou a escrever e a dizer algo que não era suposto e, tal como previa, está-me a saber tão bem, mesmo sabendo que o fracasso pode ser o prelúdio do êxito. É provável que depois até sinta ser incorrecto ou inapropriado falar de êxito e fracasso por agora. Talvez. Porém, podemos pensar que o apropriado nestas ocasiões artísticas contemporâneas é falar de intenções e oportunidades, desafios e aprendizagens e, claro, de partilhar agradecimentos. Isto é o que ocorre quando alguém faz, realiza ou partilha. Em suma, empreende. Esta palavra dita, depois daquelas, até se torna suportável. Não é verdade? Aquilo que é mesmo imprescindível é fazer. E fazer pode ser tantas coisas:

1. Nadar sem pé, à noite, no mar;

2. Gritar à porta de alguém que está a dormir, o seu nome, e esperar que acorde para nos ver com cara de parvo e um ramo de flores na mão;

3. Escrever uma longa carta de amor que nunca será enviada;

4. Andar com uma bola de bilhar em cima da cabeça, pelas ruas de uma cidade, sem a deixar cair;

5. Oferecer à dona de um bar de strip €10.000 para o fechar ao público a partir das 4h da manhã e mantê-lo aberto apenas para três pessoas até às 8h;

6. Escrever um texto a partir da projecção do que uma pessoa está a escrever num caderno;

7. Estacionar o carro em frente ao mar e ouvir Gnossiennes de Erik Satie, respirando e tomando consciência do fluxo do pensamento num diálogo frente-a-frente connosco próprios sem prejuízos, nem excitações desviantes, quero dizer em busca de uma autenticidade que só por teimosia se combate e se menospreza;

8. Fantasiar sobre o futuro sem a obrigação de o fazer cumprir, caso dependa de terceiros, pois o Outro será sempre um campo energético impossível de controlar;

9. Abordar uma pessoa desconhecida e dizer-lhe que gostaria que ela desse 5 minutos da sua vida para debaterem a possibilidade de um futuro comum;

10. Fazer um espectáculo sobre o Clube dos 27, em que a primeira cena seria a chegada de Amy Winehouse ao clube, estando o ponto de encontro ainda está por definir – aceitam-se sugestões!;

11. Ler um livro há muito desejado e até ao fim, não deixando que o seu impacto se evada pela voragem dos dias ocupados;

12. Descarregar a importância de algo que nos parece problemático e ver o que acontece, esperando que a solução surja dessa atitude;

13. Ouvir o verso “If you’re so funny then why are you on your own tonight?” de I know It’s Over dos The Smiths e, ainda assim, continuar a ser engraçadinho.
 

E já sem conseguir parar continuarei a dizer: – Quero gozar e ser gozado, porque essa é a minha missiva artística.

(…)

Excerto 2.

Ressalva em modo: mais vale cedo do que nunca

Ressalvo, desde já, que esta conferência-performance será povoada por um tom confessional que, sem querer ser lamechas, muito menos piegas – logo despojado de estratégias de envolvimento fácil e desbaratado – poderá causar emoções primárias e até levar-vos às lágrimas. Ao prever isso, pedi reforço de kleenexs, ou em alternativa, guardanapos convertidos em lenços de papel. Isto é só um pré-aviso. Adianto:

“Muito obrigado por terem vindo. Que prazer rever vocês! (…) Este é um show que fala do amor dessa forma… eterna. Obrigado por tudo… por esse carinho… por esse amor… por todas essas coisas lindas que tenho recebido de vocês… obrigado por terem vindo… gostaria de dizer muitas coisas… muitas coisas no início desse show, mas eu acho que vou dizer cantando…” – estas palavras não são minhas, são do Roberto Carlos no fim da música Emoções, a segunda de um concerto em 2004 no estádio Pacaembu (São Paulo).

Mas como eu não sou o Roberto Carlos, digo apenas que gostaria de dizer muitas coisas… no início desta conferência-performance… acho que vou dizer… lendo o que escrevi… e leio porque escrevi… quem escreve lê ou dá a ler…

(…)

Excerto 3.

A razão pela qual o que era nunca o é

Eis-nos perante o capítulo-momento I de Guerrero Notebook: Guimarães 2012, intitulado A olho nu ou (re)vestido. Gostaria que esta conferência-performance, resultante de um exercício livre de observação directa e indirecta – logo, se não estive, será por isso passível de ser apropriada através e a partir de testemunhos de terceiros: espectadores reais, notícias e críticas e, consequentemente, ficcionada e imaginada –, fosse um olhar sobrevoador  com um tratamento artístico, combinando escrita, teoria e performatividade, do primeiro semestre de programação artístico-cultural e das intervenções urbanísticas no âmbito da efeméride Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura.

Temo, porém, que não o poderei fazer. Ainda que se apresente como um projecto de acompanhamento subjectivo, logo livre de quaisquer obediências a critérios de cientificidade social, falo de abarcamento da amostra de estudo, mas também da necessidade de ver tudo para poder falar. Falo, também, do requisito de me distanciar emocionalmente do objecto de estudo para dele falar com propriedade e desapaixonadamente, como se estivesse imbuído de uma armadura de cientista social que nunca se esquece dos seus leitores distantes e implacáveis na hora de ler e em busca de uma objectividade omnipresente para a certificação do estudo. Devo dizer que nunca quis ser um cientista social. Quanto muito e para nos entendermos, o que quis ser e vou ser é:

– Um dramaturgo das minhas estéticas de recepção enquanto espectador da programação da Guimarães 2012, sentindo um profundo chamamento do trabalho de campo;

– Um antropólogo inocente como Nigel Barley[1]. Ou seja, alguém que consegue realizar uma ficção-síntese feliz entre dois universos sem afinidade aparente. A reflexividade crítica e estética da produção artístico-cultural na contemporaneidade e o humor é a mais séria das estratégias ficcionais face a um mundo repleto de contradições e entropias. Neste mundo parece soçobrar a política cultural portuguesa, afectando as suas instituições, assim como efemérides culturais como esta. Por tudo isto, eu gostava que este momento fosse um lugar onde esses caminhos, imprevisivelmente, se encontram.

[1] Nigel Barley é um antropólogo que escreveu uma obra intitulada Antropólogo Inocente (1983), em que embarca numa aventura caótica em África em busca de uma tribo remota, os Dowayos, procurando descrevê-la .

Stop.

Chamo a atenção, caros espectadores, para o seguinte: não há no que disse quaisquer intenções de desculpabilização, nem incursões metadiscursivas para encobrir a evidência de que ao longo destes seis meses não assisti a tudo aquilo que gostaria de ter assistido.

Mesmo sabendo que não poderia ver tudo e, lidando com isso, gostaria de poder falar do que não vi (metodologia de observação assumida anteriormente), continuando a atribuir valor à experiência directa como fonte de conhecimento e de produção de discurso, pois é inapelável a potência do discurso em confronto directo com o que se observa. Mais ainda no meu caso, pois sou um espectador sempre munido de um caderno de apontamentos e escrevinho muito sempre que vejo artes – sobre o que estou a ver mas também sobre algo que está para lá do que estou a ver.

Durante estes seis meses, não vim mais a Guimarães porque não pude. Porque não quis. Porque não me foi possível. Ao longo destes meses, a minha vida foi atravessada por acontecimentos que me desviaram desta cidade. Sem querer estar a produzir uma solidariedade síncrone e imediata, não abdico de partilhar que o facto de ter testemunhado a morte do meu pai…

…e de ter perdido ou de ter experienciado o fim de um amor…

…me retiraram energia e vontade de aqui ter estado. Isso permitiu-me um outro tempo, num ano de tempos escalados pela programação ao ritmo das quatro estações do ano: Tempo para Encontrar; Tempo para Criar; Tempo para Sentir; Tempo para Renascer.

Aqui e agora: um tempo para olhar para trás com a cabeça virada para a frente.

Não explorarei mais. Apenas acrescento que as perdas são importantes para renascer, qual Fénix – perdoem-me a previsibilidade da associação mitológica. O que importa é que estou certo que vou estar mais presente. Sim, virei mais.

Irei, também, reflectir sobre o que é uma Capital Europeia da Cultura. Vou fazê-lo. Terei tempo e espero que estejam de volta para o fazermos em conjunto.

É por isso que esta conferência-performance é um preâmbulo.

Pensando bem, talvez esteja a realizar um acontecimento dentro da Guimarães 2012 que, no limite, possa constar da minha próxima conferência-performance. A ver vamos.

Excerto 4.

O que vai e está prestes a acontecer

Neste primeiro momento, irei abordar o que foram estes seis meses de programação num contexto performativo que articula a teoria em contacto directo com as propostas programáticas (sobretudo artísticas performativas – é bom que se esclareça) da Guimarães 2012.

Àquela pergunta inicial respondo desta forma: tudo. Pode acontecer de tudo. Desde o agenciamento das palavras de Roberto Carlos ao vivo até à partilha de uma conversa com os espectadores sobre a vida, passando pela difusão de imagens capturadas em espectáculos, e indo, pasme-se, à reprodução de reacções e comentários de espectadores às actividades da Guimarães 2012.

Este era quase o texto de apresentação desta conferência performance. Por agora, já desvelei aquilo que estava oculto no folheto promocional. Espero que tenham prestado atenção.

(…)

E se agora partilhasse convosco um pensamento recorrente antes deste momento? Seria desejável e não poderia senão fazê-lo.

Pois aqui vai.  Só mesmo eu para me meter numa coisa destas. Um resumo de tudo o que se passou em seis meses. Eu meto-me em cada uma. Não parei de me repetir como se fosse outra pessoa: – olha a loucura em que ele anda metido!

Como é que se pode fazer algo em torno de mais de 400 actividades?  Não sei. Fico confuso. It’s bigger than life.  É ambíguo, é costa a costa. É oito ou oitenta. É ter tanta sede e ir ao pote. É como se nos víssemos perante algo que é maior que nós, mas queremos estar à altura.

Vamos lá ver como se faz ou não se faz algo em torno de mais de 400 actividades.

No texto de apresentação do ciclo de “Desconferências”, organizado pelas Produções Fictícias, no São Luiz Teatro Municipal em dezembro último, dizia-se que “nas conferências, confere-se. Nas desconferências, por maioria de razão, desconfere-se. Nas inconferências, inconfere-se,” A reboque, acrescento que é precisamente tudo isso que me proponho fazer: “neste crepúsculo de todas as crises, interessa-nos balbuciar comentários laterais, desmontar as expectativas perante um formato que promete discursos auto-certificados sobre um determinado tema, produzir alegoria a sério, enquanto etapa final de um possível processo de conhecimento partilhado,” à semelhança da mestria ignorante de Jacotot recuperada, em boa hora, por Jacques Rancière.

Interessa-nos, por isso, e mais do que nunca, shakear-vos (aportuguesamento livre do verbo to shake) a partir de imagens já vistas e já esquecidas. Objectivo: recuperar sentidos inesperados que podem transformar uma vida. Nunca vos aconteceu isso? Eu já quis tantas outras coisas por causa de uma obra de arte e confesso-vos que a última delas era a própria artista.

Bibi Andersson & Liv Ullmann, Persona, Ingmar Bergman, 1966

Não me digam que ao longo destes seis meses de fruição artístico-cultural intensa, intermitente, irregular ou mesmo esporádico-residual da programação da Guimarães 2012 nunca pensaram no amor? No amor como modo de compreender a existência e, numa intensidade por vezes dolorosa, medida em índices de felicidade e infelicidade. Não me digam que não pensaram e sentiram, aquando do / e no pós-confronto com as obras, noutras manifestações sentimentais e comportamentais da nossa aparelhagem sensorial com impacto social? Quais? No egoísmo, na inveja, na paixão, no desejo, no apego, na ansiedade, na melancolia, na euforia, no fascínio, no encantamento imediato ou tardio, na compaixão, na preguiça, no delírio, na ilusão e na desilusão, na resistência, na auto-censura, na falsidade e na autenticidade, no exercício da influência, na nostalgia, na singularidade, na obsessão, na compulsão, na obstinação, no Nada, na incompreensão, no vazio, no Eu, Tu e os Outros, na ruinophilia, no binómio sonhos-realidade, na estranheza inquietante (o unheimlich freudiano), na precariedade da condição humana. Em suma, em Nós.

Penthesilia de Martim Pedroso, 30 de junho de 2012, Centro Cultural Vila Flor

Por outro lado, não me digam que não pensaram no estatuto das artes nas vossas vidas. Entre o voyeurismo e o fazer pensar das artes perante a apropriação que nos agencia a nível racional e sensorial, logo no seu poder de transformação. Nos motores retrofuturistas de criação artística contemporânea, nas suas realizações e nos seus travestimentos. Nas pós-disciplinas, no artista-etc., na noção de autoria e de propriedade intelectual. Na mitomania, esse impulso de converter os sonhos em realidade. E, também, na omnipresença da ficção em tudo o que se faz, na noção de espectacularidade, no off-moderno, no pós-moderno, no sobre-moderno e no ultra-moderno, no subtexto, na noção de arquivo, na utopia, na hibridização, na iconoclastia.

Paul Kalkbrenner (Live Act) @ Guimarães 2012, 28 de abril, Fábrica Asa

Desastre de Igor Gandra, Residência na Fábrica Asa (fevereiro a abril de 2012)

Mais ainda e a reboque, não me digam que não pensaram na impossibilidade e inexistência da crítica, sem esquecer a sua falta de independência e claro o seu acantonamento. E, inevitavelmente, no binómio oferta e procura. Na noção de política cultural e, por arrasto,  nos lugares comuns da política – a real polititk –, mas também, na política como ciência aproximativa das comunidades e ao seu serviço, logo, garante de uma boa cidadania.

Dead Combo (Concerto), Arraial, 13 de julho de 2012, Largo São Francisco

Que sentidos de comunidade vos assolaram? Será que pensaram na noção de comunalização? Que quer isto dizer? É a criação de um sentido autêntico de comunidade a partir de uma acção social ou de uma situação-contexto artístico-cultural onde antes existia uma solidariedade difusa. Com certeza que já pensaram nos impactos da arte pública. Porque será que eu gostava tanto de saber o que cada um de vocês pensa sobre aquela instalação de Ana Jotta que se assemelha a um varandim desmesurado e dourado que entrecorta a cartografia vimaranense na praça do Toural, a mais emblemática de Guimarães?

Também já pensaram em dinheiro e na sua determinação da realidade real e, consequentemente, do nosso futuro próximo. Nos estatutos e papéis sociais. E no que se vai fazer a seguir a vermos o espectáculo?

Seguramente que já vos aconteceu pensar em comida. Em Guimarães, a seguir a um espectáculo ou uma noitada, todos os caminhos vão dar ao Júlio. O que pensar quando lá vamos comer um preguinho e o ouvimos dizer, entre outros ditos site-specific, a um cliente forasteiro que assim que se senta lhe pergunta qual é a senha da net e ele, o Júlio, responde: Consome primeiro! – rindo-se muito para quem lhe é cúmplice, num sorriso que abdico de descrever para retirar força à descrição e certificar o meu distanciamento face à realidade dentífrica observada?

Em suma, quando nos confrontamos com as artes tudo pode acontecer. E tudo quer dizer mesmo tudo. Tudo o que nos vem à cabeça é um campo de possibilidades, qual Atlas de Transformação. Esse confronto desvela-nos que algures há um futuro que, quem sabe, será conferido, talvez, um destes dias. Eu vou estar atento.

> clicar para ampliar:

A propósito do carácter transformador na recepção artística e para que se perceba que nele não configuro nada de extraordinário, nem aprioristicamente sublime, nem dogmaticamente produtor de felicidade, auto-cito-me com a vossa licença:

“As artes e os seus mais diversos locais de apresentação – tal como a estrutura de um prédio, a ordenação de uma cidade, as vias de comunicação –, são lugares e habitações do pensamento que revelam acções, gestos, filosofias, princípios políticos, compromissos, ligações e desligações, marcas de identidade, posições territoriais, desafios, incitando, eventualmente, a outras (numa lógica de influência positiva). Talvez seja também essa a felicidade que se pode encontrar num acontecimento artístico, a de levar para casa uma enorme vontade de acção, nem que seja para, quando lá chegarmos, fazer a cama e logo de seguida nos deitarmos nela.” (ArtinSite, nr. 0, Transforma-Associação Cultural, Outubro de 2006)

> clicar para ampliar:

Eu não vos disse? Pois.

É por isso que, aqui e agora, não se pode esperar a produção de um exercício de crítica convencional num apontamento retardado das evidências e das adversidades e dificuldades com que a Guimarães 2012 se tem visto confrontada no seu dia-a-dia. Mas também não serei pusilânime, nem farei elogios ditirâmbicos. Em suma e sem quaisquer destrezas linguísticas, estou aqui para vos dizer aquilo que quero dizer. Deste modo, quero-vos dizer o seguinte sobre o que vi e não vi mas gostava de ter visto, nalguns casos ouvi falar, noutros li e noutros imaginei o que terá acontecido – daí o carácter experimental da observação, quais bolsos de resistência de que John Berger fala, como uma nova experiência de apreensão e compreensão do visível e do invisível ou tão só do não visto.

WAYS OF SEEING (first episode) 2/4

WAYS OF SEEING (first episode) 3/4

WAYS OF SEEING (first episode) 4/4

Excerto 5.

Modos de ver (arte)

“Falar de cultura em 2012, é falar de Guimarães, a Capital Europeia da Cultura. A cidade minhota, conhecida como o ‘Berço de Portugal’, vai receber cerca de 600 espectáculos ao longo de todo ano, na mesma altura em que a vizinha Braga, Capital Europeia da Juventude em 2012, apresenta uma série de iniciativas culturais.” – Foi assim que, no início do ano, um jornal diário de referência resumiu Guimarães 2012.

Sem comentários. Vá, apenas um: este resumo talvez nos mostre o estado actual do nosso jornalismo cultural, do qual, havendo tanto para dizer, me escuso, por ser tão pouco apetecível. Chamo, apenas, a atenção para a comparação entre as duas cidades e as iniciativas. Conclusão: cada uma com a sua.

Quanto a mim e retomando o discurso intra-observação pessoal do que vi, não vi mas gostava de ter visto e nalguns casos ouvi falar, noutros li e noutros imaginei o que terá acontecido, começo por dizer que tirei muitos apontamentos – eu gosto mesmo de tirar apontamentos e, até hoje, não senti o efeito Bartleby, assente na expressão I would prefer not to, explorado ficcionalmente por Enrique Vilas-Matas e filosoficamente por Gisèle Berkman a partir da obra homónima de Herman Melville.

Não querendo, através da minha linguagem, desaparecer nesse acto de inscrição do que vejo e sinto, quero dizer-vos que às vezes as ideias, ao parecerem-nos tão boas, as perseguimos e vamos em frente. Vivemo-las quando falamos delas, quando as pessoas, ao debaterem-nas, reagem bem e nos dizem: a ideia é óptima e estamos muito curiosos; aí acreditamos ainda mais nelas ou só mais um bocadinho, mas cá dentro sabemos que para nos satisfazer vai ser preciso muito trabalho e se calhar não vai haver tempo – ansiedade que só passa quando alguém nos solicita ou alguém nos diz: boa sorte, vai correr tudo bem. É muito ambíguo o que nos pode passar pela cabeça num momento como este.

(Pausa para o Nelson reproduzir a experimentação dessa ambiguidade no corpo.)

Excerto 6.

Depois de visto, o que posso dizer

Devo ressalvar que vou falar apenas de algumas actividades que vi com a promessa de na próxima conferência-performance, agendada para o próximo dia 8 de setembro no Coreto, procurarei abarcar todas as minhas experiências estéticas e falar sobre o que não falei, superando o risco de canibalizar conteúdos.

Experiência estética nº 1

Cosmos de Lautaro Vilo / Teatro Oficina

Espaço Oficina, dia  9 de Março, às 22h

Desta peça retive as seguintes frases que vos sirvo como souvenirs ou flashbacks:

1. Se não há pensamento, não há existência.

2. Se não há existência, não há sofrimento, ou melhor, não há uma esteticização do sofrimento.

3. Todos nós deixamos coisas por fazer.

4.  Jesus é cultura.

5. Mergulhar na existência e deparar com as contradições interiores é o programa existencialista de Hegel.

Do dispositivo cénico num formato “rádio-teatral” em que os actores interpretaram o texto sentados diante de microfones cor-de-laranja – detalhe-âncora da nossa atenção –, apenas digo três palavras: envolvente, eficaz e transparente. E por aqui me fico, pois eu não quero fazer crítica de espectáculos.

O que me interessa é que no meio do espectáculo escrevi no meu caderno o seguinte: “Fixa-te. Tens esse problema com a vida. Não te esqueças que estás sempre em auto-contrução e auto não é uma abreviatura de automóvel.”

Experiência estética nº 2

LabOfilm & 1: O Lamento da Branca de Neve de Olga Mesa

Asa, dia 10 de Março, às 20h30

Este espectáculo, inspirado no polémico filme Branca de Neve de João César Monteiro, é o resultado de sete anos de investigação da coreógrafa e bailarina sobre o conceito do corpo operador.

Deste espectáculo, mais do que tudo, quero partilhar que a meio dele escrevinhei o seguinte excerto de uma carta de amor para uma certa pessoa:

Volto a conectar-me com o espectáculo e o espaço e ouço alguém na fila atrás de mim a dizer o seguinte: – Foda-se! Quando é que isto acaba? Foooooooda-se… estou a ficar com uma traça do caralho!!!! E esta merda nunca mais acaba!!!! – Depois ouço outra voz vizinha da primeira: – Tem calma caralho… ouvi dizer que era uma hora e um quarto… já só faltam cinco minutos e há cocktail com croquetes e o caralho… – Tá bem! – diz o esfomeado, que é como quem diz o espectador emancipado… ou antecipado e o caralho… percebem… estava à frente do espectáculo… não estava refém… era um espectador soberano e autónomo com as noções muito bem definidas dos seus limites de suportabilidade e de obediência às suas necessidades fisiológicas – deveria ser um adepto ferveroso de Maslow e da sua pirâmide das necessidades… já para não falar, e em caso de dúvidas, que a palavra caralho fechava o discurso… dizendo claramente ao outro com que cabeça é que pensava… Já estou a exagerar… eu sei… Estava a viajar na maionese como se costuma dizer por aí.

Excerto 7.

Off-Guimarães 2012

A essa mesma hora estava a acontecer um dos momentos off mais significativos da Guimarães 2012.

A saber e reproduzindo um lead de um jornal local:

“Tony Carreira dá um concerto no Multiusos de Guimarães, no dia 10 de Março de 2012, às 22 horas. O cantor português inicia a digressão de 2012 no Multiusos de Guimarães.“

Eu gostava mesmo de ter ido. Até escrevi um texto intitulado Um dia vou ver o Tony Carreira ao Pavilhão Atlântico. E prometi um dia levar a minha mãe.

Tento imaginar o que ali se passou e vem-me à cabeça o grito de uma fã: – Tooooonnnnyyyyy! Eu amo-te. Faz-me um filho sem ninguém saber.

A propósito disto, reproduzo o diálogo do meu encontro com o Tony Carreira em Guimarães:

Nelson: – Então tudo bem? Obrigado pela disponibilidade.

Tony: – Tudo. Não tem que agradecer. É um prazer.

Nelson: –  Então e o concerto ontem à noite correu bem?

Tony: – Correu muito bem. Estava cheio.

Talvez por isso se perceba melhor o porquê do seu apelido. E não me venham dizer que este é o seu apelido verdadeiro; isso não interessa para nada pois o efeito é o mesmo.

Excerto 8.

Segunda parte tão breve quanto impossível

Recomeço com esta pergunta: Em que é que a arte pode transformar o mundo? Parece que Guimarães quis responder desde aqui a esta pergunta. A esta e a outras:

• Que poema é que se pode escrever hoje?

• Que peça é que se vai escrever amanhã sem ser encomendada?

• O que é que move uma luta contra o esquecimento?

• Como é que o poeta pode dar conta do mundo de hoje?

• Qual é o sentido de fazer agora um texto considerado a obra maior de todo o teatro romântico?

• Como é que hoje se fala do amor?

• Como sempre se falou, será a resposta?

• E como é que se fala da Nike e da deslocalização de empresas?

• E da mobilidade das pessoas por motivos de discriminação racial?

• E do norte e do sul?

• E do consumismo de pacotilha?

• E da Mac Donald’s?

• E das Kardashian?

• E do Cristiano Ronaldo?

• E da Lady Gaga Gaga?

• E da desvalorização da família?

• E das sociedades sem futuro?

• E dos electrões livres?

• E da visão da História do nosso país?

• E das vidas que não podemos mas queremos ter?

• E da descrença no amor para sempre?

• E das fantasias recônditas sem magoar a pessoa com quem vivemos?

• E da possibilidade de seduzir através da escrita?

• E da possibilidade da criação como um acto de reparação?

• E de uma ideologia que não praticamos?

• E da vulgaridade da violência?

• E do mistério da vida?

• E da arte?

• E da utilidade ou da sua inutilidade?

• E de levar o teatro ao seu grau zero?

• E do erro de Descartes e da consciência de si?

• E da impossibilidade do tempo falar das suas coisas?

• E do que gostávamos de ouvir, de escrever ou de ver feito?

• Como?

• Quem?

• Porquê?

Aproveito a oportunidade para partilhar esta frase iluminante de Hannah Arendt, da obra Entre O Passado e o Futuro: “Em cada refeição que tomamos juntos, a liberdade é convidada a sentar-se. A sua cadeira continua vazia, mas reservamos-lhe o lugar.”[2]

[2] Arendt, Hannah, Entre o Passado e o Futuro, Relógio d’Água, Lisboa, p. 18

Agora em jeito de rewind selector, isto é, free form: Aquilo que disse antes são os chamados “radicais livres”, conteúdos que queremos utilizar mas não sabemos onde. Por outras palavras, busca, encontro e inclusão ou reprodução livre de ideias, frases, conceitos e afins que importa partilhar. Deste modo, e em modo curto e grosso, continuar a fazer o trabalho.

Permitam-me esta citação bastante apropriada Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina:

“Um dia, leitor, hei-de contar as ânsias e tormentos com que se vai martelando esta artesania da escrita, em que ainda sobrevive a mão do caldeireiro ou, talvez, do fazedor de autómatos, e explicar como é desolador chegar ao nascer da roxa aurora e ao rumor dos primeiros autocarros apenas com duas ou três páginas sofrivelmente apontadas. Só este trabalho de minuciosa lavra, em traiçoeira brenha, não contando com o resto, havia de ser, não principescamente, não regiamente, mas imperialmente pago.“

(…)

Excerto 9.

O fim desde o princípio

Esta conferência-performance não tem um fim à vista, já que ainda tinha tantas coisas para dizer sem saber quais são, pois não as escrevi. Ainda assim sei que vou escrevê-las, porquanto isto não é uma desculpa. Este texto vai ser concluído. Inverto por isso, e de uma forma honesta mas igualmente a meu bel-prazer, a frase inicial da obra Gramáticas de Criação de Georges Steiner, “Já não há começos”,  dizendo para finalizar este capítulo-momento I: Já não há finais/fins. (to be continued escriticamente)

Se houvesse um final-final, ou seja, un grandfinal, gostava de acabar com a abertura de  garrafas de champanhe Veuve & Cliquot – que eu aportugueso sempre que o bebo como A Vulva Clicou – mas, por razões óbvias e circunstanciais, vi logo que era melhor não, porque o champanhe ou é para todos ou não é para ninguém.

Excerto 10.

Posfácio

(O Vasco – técnico de som e de luz – começa a ler este texto a partir da régie.)

Nelson espera que as pessoas se desfaçam da piada no seu corpo e fiquem a olhar para ele à espera que aconteça alguma coisa ao mesmo tempo que os seus rostos se recompõem. Ele sabe que depois de cinco segundos algumas pessoas começarão a olhar para o lado à espera que haja um olhar cúmplice que as acompanhe neste momento de entrega a si próprios.

Nelson continua impávido e sereno (aparentemente) a olhar para as pessoas como se de repente fosse ele o espectador de um espectáculo que está à sua frente: um conjunto de pessoas que conhece e outras que não conhece de todo, vindas não sabe muito bem donde mas que estão a ali a oferecer-lhe uma das imagens da sua vida enquanto espectador da sua própria conferência-performance. Ao constatar isso, vem-lhe à cabeça esta frase: – gostava de ficar aqui para sempre.

Ressoam-lhe as palavras “I would prefer not to” de Bartleby e aguarda. E pensa: – Um segundo nas nossas vidas pode ser esse instante-sempre, essa fracção de vida feliz que o tempo vai impiedosamente resgatar  para possibilitar que cada um regresse às suas vidas, como se isto que aqui aconteceu fosse algo extraordinário.

Depois desse ponto final vem-lhe à cabeça a seguinte frase de Beckett na obra O Inominável que utilizou como epígrafe da sua primeira conferência-performance nos idos 2003: “Tranquilize-se quem deseja ter vivido, enquanto vivia, que a vida dir-lhe-á como isso se faz.” Agora sim espera que alguém comece a bater palmas. Resta acrescentar que estará disponível para responder a perguntas, mas só depois das palmas.

FIM

Nelson Guerreiro

Junho de 2012

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